História da cidade de São Paulo
História da cidade de São Paulo ocorre paralelamente à história do Brasil, ao longo de aproximadamente 472 anos de sua existência, contra os mais de quinhentos anos do país. Todavia tenha sido marcada por uma relativa inexpressividade, seja do ponto de vista político ou econômico, durante os primeiros três séculos desde sua fundação, São Paulo destacou-se em diversos momentos como cenário de variados e importantes momentos de ruptura na história do país.
São Paulo surgiu como missão jesuítica, em 25 de janeiro de 1554, realizada pelo padres Manuel da Nóbrega e José de Anchieta, reunindo em seus primeiros territórios habitantes de origem tanto europeia quanto indígena. Com o tempo, o povoado acabou caracterizando-se como entreposto comercial e de serviços de relativa importância regional. Esta característica de cidade comercial e de composição heterogênea vai acompanhar a cidade em toda a sua história, e atingirá o seu ápice após o espetacular crescimento demográfico e econômico advindo do ciclo do café e da industrialização, que elevariam São Paulo ao posto de maior cidade do país.
Período Pré-Colonial
[editar | editar código]As datações por carbono-14 mais antigas obtidas até o momento sugerem que os primeiros grupos humanos se estabeleceram no atual estado de São Paulo nos milênios iniciais do Holoceno, há entre 11 e 9 mil anos.[1][2][3] Essa ocupação inicial se deu por populações indígenas nômades que viviam em pequenos acampamentos, possuíam uma economia caçadora que necessitava de uma diversidade de artefatos líticos produzidos pela técnica de lascamento, bem como instrumentos confeccionados a partir de matéria prima orgânica (como osso e madeira). Entre os artefatos líticos produzidos podem ser destacados os raspadores unifaciais de grandes dimensões, bastante utilizados para atividades de descarne de animais, assim como pontas de projéteis e percutores.[4][5] A princípio, como forma de facilitar o entendimento dos processos de ocupação da região, pesquisas arqueológicas voltadas para o contexto do território paulista associaram essas populações a duas tradições arqueológicas distintas: Umbu e Humaitá.[4]
Por sua vez, os registros arqueológicos mais antigos já descobertos no município de São Paulo foram coletados no sítio Morumbi,[6] apresentando uma datação estimada de 5 500 anos Antes do Presente.[7] Encontrado por acaso em 1964, no sítio Morumbi foram identificadas mais de 200 000 peças líticas ao longo de quatro etapas de escavações, o que reforçaria a hipótese de que se tratava de uma área para obtenção de matéria-prima para produção de ferramentas de pedra.[8][9][10] Em 2002, durante as obras do Rodoanel, foi encontrado um outro sítio arqueológico com grande número de fragmentos de pedras lascadas, o qual foi denominado Jaraguá 2.[11]
Os registros arqueológicos referentes às populações horticultoras e ceramistas são logicamente mais recentes em São Paulo e arredores, provavelmente remontando aos primeiros séculos da era cristã.[2] Dominando a agricultura de cultivares ricos em carboidratos como o milho e a mandioca, tais grupos apresentavam uma densidade demográfica maior, sendo estes os antepassados das populações falantes de línguas filiadas aos troncos Macro- Jê e Tupi.[12][13] Apesar de também produzirem ferramentas a partir de rochas e outros materiais, os vestígios arqueológicos pelos quais são mais conhecidos são as cerâmicas. É o caso dos sítios Jaraguá 1,[14] sítios arqueológicos Jardim Princesa I e II[15] e Penha,[16] locais onde a cerâmica encontrada foi associada à Tradição Tupiguarani. Outros sítios arqueológicos onde material cerâmico indígena foi encontrado, porém sem associação com tradições arqueológicas conhecidas são: Olaria II,[17] Jaraguá Clube[18] e Paulistão.[19] Há também evidências abundantes da presença de populações ceramistas Jê, geralmente associados pela literatura arqueológica à Tradição Itararé-Taquara.[8][20]
Durante o século XIX, diversas pesquisas históricas concluíram, com base em documentos do período colonial, que as terras do Planalto de Piratininga eram habitadas pelos Guaianás (também conhecidos como Guaianazes). Embora hoje saiba-se que estes grupos eram relacionados ao tronco linguístico Macro-Jê, possivelmente ancestrais dos atuais Kaingang, foram frequentemente associados aos povos de língua tupi-guarani pela historiografia paulista oitocentista.[21] De acordo com Monteiro:[22]
“...a ‘tradição histórica’ teria se originado com Gabriel Soares de Sousa ainda no século XVI, que de forma bastante vaga atribuía aos Guaianá um território que se estendia de Angra dos Reis a Cananeia, tradição essa vulgarizada por Pedro Taques, Frei Gaspar, Machado de Oliveira, Varnhagen, Azevedo Marques e Couto de Magalhães, entre outros, que confundiam os Guaianá de Soares de Sousa com os Tupi de outras fontes coêvas (Ribeiro, 1908, 183). Nessas alturas, porém, Teodoro Sampaio já havia matado a charada: a partir de um criterioso estudo dos escritores quinhentistas, concluiu o tupinólogo baiano que os Guaianá eram, de fato, um grupo não-tupi mas não eram os principais habitantes das áreas posteriormente colonizados pelos portugueses (Sampaio, 1897 e 1903)”.
Por outro lado, dados e informações arqueológicas e historiográficas dos séculos XVII e XVIII demonstraram que os Guaianá eram bastante numerosos na vila de São Paulo nessa época, visto que eram capturados pelas expedições bandeirantes para servirem como escravos nas lavouras.[21] O termo “Guaianá”, contudo, não descreve necessariamente um povo em específico, mas diversas populações não-Guaranis, não sendo um termo usado pelos próprios indígenas. De acordo com os relatos deixados pelos jesuítas no século XVI, o chamado planalto de Piratininga era habitado predominantemente por grupos tupis quando da chegada dos europeus, sendo frequentemente citados os tupiniquins.[23]
Piratininga é termo do tupi antigo que significa "peixe seco". Conforme o historiador Varnhagen, a motivação do nome é a piracema que ocorre no rio homônimo, na região. Ao baixarem as águas, os peixes ficam na areia, mortos, donde o nome.[24]
Período colonial
[editar | editar código]Antecedentes
[editar | editar código]Em 1532, Martim Afonso de Sousa fundou no litoral de São Paulo a primeira vila brasileira, de São Vicente. Onde ocorreu o primeiro conflito entre europeus na América Sul, a Guerra de Iguape. Donatário da capitania de São Vicente, Martim Afonso incentivava a ocupação da região e outras vilas são criadas no litoral (Itanhaém, 1532; Santos, 1546). Poucos anos depois, vencida a barreira representada pela serra do Mar, os colonizadores portugueses avançam pelo planalto Paulista, estabelecendo novos povoados. Em 1553, João Ramalho, que vivia no planalto desde antes da criação de São Vicente, funda a vila de Santo André da Borda do Campo, situada no caminho do mar (atual região do ABC paulista). Explorador português, João Ramalho era casado com a índia Bartira. Esta, por sua vez, era filha do cacique Tibiriçá, chefe da tribo dos tupiniquins.[25] João Ramalho encontrava-se, dessa forma, apto a exercer a função de intermediário dos interesses portugueses junto aos indígenas.
Fundação
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Interessado em estabelecer um local onde pudesse catequizar os indígenas longe da influência dos homens brancos,[26] o padre Manuel da Nóbrega, superior da Companhia de Jesus no Brasil, observou que uma região próxima, localizada sobre um planalto, seria o ponto ideal, então chamado de Piratininga. Em 29 de agosto de 1553, padre Nóbrega fez 50 catecúmenos entre os nativos, o que fez aumentar a vontade de fundar um colégio jesuíta no Brasil.[27]
Embora a busca da catequese sem a influência do homem branco fosse um objetivo, o que precipitou a mudança para o planalto foi a necessidade de resolver o problema de alimentação dos indígenas que estavam sendo doutrinados, como afirma o padre Anchieta:[28]
“ Para sustento destes meninos, a farinha de pau era trazida do interior, da distância de 30 milhas. Como era muito trabalhoso e difícil por causa da aspereza do caminho, ao nosso Padre (padre Manuel da Nóbrega) pareceu melhor no Senhor mudarmo-nos para esta povoação de índios, que se chama Piratininga. ”
Em janeiro de 1554, um grupo de jesuítas, comandado pelo padre Manuel da Nóbrega e auxiliado pelo igualmente jesuíta José de Anchieta,[29] chega ao planalto, auxiliado por João Ramalho. Com o objetivo de catequizar os indígenas que viviam na região, os jesuítas erguem um barracão de taipa de pilão, em uma colina alta e plana, localizada entre os rios Tietê, Anhangabaú e Tamanduateí, com a anuência dos chefes indígenas locais, como o cacique Tibiriçá, que comandava uma aldeia de tupiniquins nas proximidades, e o chefe Tamandiba.[30] Em 25 de janeiro daquele ano, dia em que se comemora a conversão do apóstolo Paulo, o padre Manuel de Paiva celebra a primeira missa na colina. A celebração marcou o início da instalação dos jesuítas no local, e entrou para a história como o nascimento da cidade de São Paulo. Dois anos depois, os padres erguem uma igreja – a primeira edificação duradoura do povoado. Em seguida, ergueram o colégio e o pavilhão com os aposentos. Destas construções originais, resta apenas uma parede de taipa, onde hoje encontra-se o Pátio do Colégio.

Ao redor do colégio, formou-se uma pequena povoação de indígenas convertidos, jesuítas e colonizadores portugueses. Em 1560, a população do povoado seria expressivamente ampliada, quando, por ordem de Mem de Sá, governador-geral da colônia, os habitantes da vila de Santo André da Borda do Campo são transferidos para os arredores do colégio. A vila de Santo André é extinta, e o povoado é elevado a esta categoria, com o nome de "Vila de São Paulo de Piratininga".[23] Por ato régio, é criada, no mesmo, ano, sua Câmara Municipal, então chamada "Casa do Conselho". É provavelmente nesse mesmo ano de 1560 que é criada a "Confraria da Misericórdia de São Paulo" (atual Santa Casa de Misericórdia).
Em 1562, incomodados com a aliança entre tupiniquins e portugueses, os tupinambás, unidos na Confederação dos Tamoios, lançam uma série de ataques contra a vila em 9 de julho,[31] no episódio conhecido como Cerco de Piratininga. A defesa organizada por Tibiriçá e João Ramalho impede que os tupinambás entrem em São Paulo, e os obriga a recuar, em 10 de julho do mesmo ano.

Ainda em 1590, com a iminência de um novo ataque a cidade novamente se prepara com obras de defesa, e é claro que nesse ambiente cheio de incertezas a prosperidade se torna impossível. Mas na virada do século XVII a situação se acalma e se consolida o povoamento, nas palavras de Alcântara Machado:
Afinal, com o recuo, a submissão e o extermínio do gentio vizinho, mais folgada se torna a condição dos paulistanos e começa o aproveitamento regular do chão. Deste, somente deste, podem os colonos tirar sustento e cabedais [bens materiais]. É nulo, ou quase nulo, o capital com que iniciam a vida. Entre eles não há representantes das grandes casas peninsulares [famílias do Reino], nem da burguesia dinheirosa. Certo que alguns se aparentam com a pequena nobreza do reino. Mas, se emigram para província tão áspera e distante, é exatamente porque a sorte lhes foi madrasta na terra natal. Outros, a imensa maioria, são homens do campo, mercadores de recursos limitados, artífices aventureiros de toda casta, seduzidos pelas promessas dos donatários ou pelas possibilidades com que lhes acena o continente novo.[33]
Ocupação da cidade
[editar | editar código]Desde o início, a ocupação das terras da cidade se deu de forma policêntrica, com diversos aldeamentos, principalmente jesuítas mas também de outras ordens eclesiásticas, em torno das quais iniciavam-se as aglomerações. A motivação mais natural para isso, em São Paulo, era o relevo da cidade, com muitos aclives e riachos. A organização urbana, da mesma forma que em toda a colônia, era centrada, administrativa e eclesiasticamente, nas paróquias. Cada paróquia era centrada em uma capela.[34]
A primeira paróquia foi, naturalmente, a Freguesia da Sé, fundada em 1589. Conforme os demais núcleos foram crescendo, eles desmembraram-se, com novas capelas ganhando status de paróquia. As paróquias desmembradas do centro foram:[34]
- 1796, 26 de março: Paróquias de Nossa Senhora do Ó e Penha de França, ambas distantes cerca de 10 km do centro;
- 1809, 21 de abril: Paróquia da Santa Ifigênia, mais próxima mas naturalmente separada pelo rio Anhangabaú;
- 1812, 21 de outubro: Paróquia de São Bernardo, que no ano seguinte (1813, 9 de novembro) foi ainda elevado a distrito;
- 1818, 8 de junho: Paróquia do Brás, também mais próxima, mas naturalmente separada pelo rio Tamanduateí.
Além dessas, houve diversos aldeamentos mais distantes. Dentre eles, apenas três prosperaram: Pinheiros, Sant'Anna[35] e São Miguel, ambos fundados por José de Anchieta em 1560.[34][36] Inaugurada em 1580 e posteriormente reconstruída em 1622, a capela erigida pelos jesuítas no atual bairro de São Miguel Paulista é considerada a mais antiga do município de São Paulo.[37][38] Vários aldeamentos foram dizimados pela varíola, dentre os quais podemos citar: Itaquaquecetuba, Mboy, Itapecerica, Barueri, Guarapiranga, Carapicuíba, Ibirapuera e Guarulhos.[34]
São desta época os primeiros caminhos: o que ia ao Campo do Guaré (hoje chamado bairro da Luz) tornou-se a atual rua Florêncio de Abreu. Os outros dois dariam origem às hoje denominadas rua 15 de Novembro e rua Direita.
Também no século XVI são fundadas novas igrejas: a Matriz, em 1588 (primeiro protótipo da Sé paulistana), a de Nossa Senhora do Carmo, de 1592 (demolida em 1928), a Igreja de Santo Antônio (ainda hoje na Praça do Patriarca), e a capela de Nossa Senhora da Assunção, por volta de 1600 (que daria origem ao atual Mosteiro de São Bento). Um viajante chegando à cidade nas primeiras décadas do século XIX veria algo como:
“ Depois de ultrapassar a Igreja da Penha sobre sua pequena colina, ele descortinaria, ao longe, o sítio inteiro da cidade. Sobreposta sobre outra colina, São Paulo apareceria-lhe dominado pelas torres de suas oito igrejas, seus dois conventos e seus três mosteiros. Era ainda necessário caminhar quase nove quilômetros, atravessar o pequeno aglomerado formado em torno da Igreja do Brás, passar o sítio pantanoso do Carmo, cruzar a ponta lançada sobre o Riacho do Tamanduateí para chegar afinal ao centro urbano.[34] ”
A base da alimentação nos primeiros tempos era formada pela canjica, uma das principais influência indígena na culinária colonial, o angu de fubá ou de farinha de milho e de mandioca. Convenientemente que esses alimentos não precisavam de sal, que naquela época era raro. A mandioca, que era o principal alimento no início do aldeamento, foi aos poucos sendo superada pelo milho. O trigo, embora desse bem na região, não foi muito utilizado no início - apenas para hóstias e bolinhos - devido a facilidade de se obter a mandioca e o milho. Apenas nos primeiros anos do século XVII que se iniciou uma produção maior de trigo, com pelo menos cinquenta plantadores de trigo no planalto e diversas licenças da Câmara para os moradores fazerem seus próprios moinhos.[39]
Além desses alimentos-base, faziam parte da dieta as frutas bravas e selvagens, palmitos e outros alimentos encontrados nas roças ameríndias,[40] bem como muitas frutas europeias como maçãs, pêssegos, amoras, melões e melancias.[41] A cultura da vinha também teve desenvolvimento nos primeiros anos, sendo que se encontrava sempre muito vinho na vila, a não ser quando os comerciantes espertos tentavam o açambarcamento. Esses vinhos muitas vezes eram utilizados como remédio, servindo de veículos para plantas medicinais. O mesmo se dava com a cachaça que era produzida na região.[39]
Os bandeirantes
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No século XVII, as atividades econômicas da vila limitavam-se quase que exclusivamente à agricultura de subsistência. A produção e exportação de açúcar não tinha grande desenvolvimento, embora crescessem outros cultivos nos arredores da vila, como o de trigo, mandioca e milho, além da criação de gado. Não obstante, São Paulo permanecia como um núcleo de povoamento pobre e isolado das áreas mais dinâmicas da colônia. Assim, já nas primeiras décadas do século, os paulistas começaram a organizar as bandeiras – grandes expedições que partiam em direção aos sertões inexplorados da colônia, em busca de mão-de-obra indígena, pedras e metais preciosos. Em pouco tempo, os bandeirantes se tornaram os grandes responsáveis pela ampliação dos limites das fronteiras da colônia, incorporando ao território do Brasil inúmeras áreas que, de acordo com o Tratado de Tordesilhas, pertenciam à Espanha.
Os bandeirantes se tornaram figuras centrais na história política de São Paulo no século XVII, e a autoridade local dos exploradores por vezes sobrepujava os interesses da Igreja Católica e da própria coroa portuguesa. Em 1640, a forte oposição dos jesuítas à captura e comercialização da mão-de-obra indígena promovida pelos bandeirantes levou a uma série de conflitos entre os dois grupos, que culminariam, em 13 de julho daquele ano, com a expulsão dos jesuítas de São Paulo, medida que teve apoio dos comerciantes da vila. Os jesuítas só obteriam permissão para retornar a São Paulo em 1653.[42]

É também na vila de São Paulo que se registra, no mesmo ano de 1640, o primeiro movimento nativista do Brasil, a chamada "Aclamação de Amador Bueno". Com o fim da Guerra da Restauração, em que Portugal restabeleceu sua independência política da Espanha, os moradores de São Paulo, principalmente bandeirantes e comerciantes, temiam ser prejudicados, já que haviam se beneficiado economicamente do tráfico de indígenas na região do rio da Prata durante as décadas em que vigorou a União Ibérica. Como forma de protesto, declararam São Paulo reino independente, e Amador Bueno, capitão-mor, proprietário de terras,[43] rico morador da vila e irmão do bandeirante Francisco Bueno, é aclamado como rei. Amador Bueno, no entanto, rejeita o título e jura fidelidade à coroa portuguesa, encerrando o levante.[44]
Em um primeiro momento, a concentração da atividade bandeirista em São Paulo fomentou, ainda que de forma tímida, a atividade econômica da vila, que ensaia exercer, pela primeira vez, a posição de entreposto comercial. Alguns bandeirantes, enriquecidos com o comércio de escravos indígenas, faziam benfeitorias na vila. Fernão Dias, eleito juiz ordinário e presidente da Câmara Municipal, por exemplo, doou aos monges beneditinos os recursos necessários para a reconstrução do Mosteiro de São Bento. Outras ordens religiosas se instalariam na cidade no século XVII, como os franciscanos, que em 1647 haviam inaugurado o convento (demolido em 1932, para dar lugar à Faculdade de Direito) e a igreja de São Francisco, no largo homônimo.
Embora a maior parte das edificações construídas durante o período colonial tenham sido demolidas nos séculos seguintes, algumas das sedes de fazenda erigidas entre os séculos XVII e XVIII ainda podem ser observadas em São Paulo. É o caso dos sítios arqueológicos Casa do Tatuapé,[45] Casa do Itaim,[46] Casa do Bandeirante,[47] Casa do Sertanista,[48] Morrinhos,[49] sítio da Ressaca,[50] Sítio do Capão[51] e Casa do Sítio Mirim,[52] locais convencionalmente chamados de casas bandeiristas. Outros locais onde há vestígios materiais da antiga vila de São Paulo de Piratininga e aldeamentos nas cercanias são os sítios arqueológicos Guaianazes,[53] Pinheiros 2,[54] Santo Amaro 01,[55] Travessa da Sé,[56] Horácio Lafer[57] e Poço Jesuíta.[58]
A corrida pelo ouro
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Estrategicamente localizada defronte os principais caminhos para o interior, e banhada pelo rio Tietê (cujo curso natural servia de caminho ao interior da capitania e à atual região Centro-Oeste), São Paulo converteu-se no principal centro do movimento bandeirante, especialmente a partir da década de 1660. Foi da vila que partiram as históricas expedições de Fernão Dias Pais, Antônio Raposo Tavares, Domingos Jorge Velho e de Bartolomeu Bueno da Silva, entre outras.
Em 1690, os bandeirantes paulistas descobriram ouro no "Sertão do Cuieté", atual estado de Minas Gerais. Repetiriam o feito alguns anos mais tarde, em Mato Grosso e Goiás. Em fins do século XVI, contudo, a mineração de ouro já ocorria nos arredores do Pico do Jaraguá, onde diversas lavras auríferas foram exploradas por colonos como Afonso Sardinha.[59][60][61][62][63][64] Embora tenham gerado muito menos ganhos quando comparadas às minas encontradas pelos paulistas nos estados de Minas Gerais, Mato Grosso e Goiás, a busca pelo ouro na então São Paulo de Piratininga provavelmente foi a primeira experiência minerária na América Portuguesa, motivando a criação de uma Casa de Fundição já no primeiro século de colonização.[8][65][66]
Primeiros a explorar e ocupar o território mineiro, os paulistas logo enfrentariam a concorrência de luso-brasileiros de outras regiões da colônia, culminando no conflito denominado Guerra dos Emboabas. A descoberta paulista despertou pela primeira vez a atenção do reino português sobre a vila, já que São Paulo, a essa altura, não apenas concentrava a partida das expedições, mas também tornara-se o núcleo principal de irradiação das correntes de povoamento que se dirigiam para Minas Gerais e, posteriormente, para o Mato Grosso e Goiás. Como consequência, em 1709, São Paulo substitui São Vicente como sede administrativa da capitania (que tem seu nome alterado para Capitania de São Paulo e Minas de Ouro). Em 1711, São Paulo é elevada a cidade. Conta nesse ano 9 mil habitantes. Em 1745, torna-se sede de bispado autônomo, separando-se da diocese do Rio de Janeiro.
Embora a corrida pelo ouro de Minas tenha enriquecido muitos desbravadores paulistas, o efeito sobre a cidade foi o oposto. O esvaziamento populacional empobreceu São Paulo, que assistiu a um longo período de estagnação em seu crescimento econômico. Com o esgotamento das jazidas mineiras, na segunda metade do século XVIII, a situação se agrava, e muitos paulistas retornam aos seus locais de origem. A cidade recebe novo fluxo populacional e tenta reorganizar sua atividade econômica.
O ciclo do açúcar
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O governo paulista passa a desenvolver um plano de fixação de suas populações em áreas exploradas da capitania, e começa a fornecer incentivos à lavoura e à indústria. O plantio da cana-de-açúcar é estimulado nas áreas a sudeste da capital, e grandes fábricas de tecelagem e fundição são instaladas. Em 1792, a abertura da Calçada do Lorena, importante obra de engenharia do período colonial, ligando as cidades de São Paulo e Santos, forneceria condições adequadas para o transporte de açúcar e de outros gêneros alimentícios produzidos no interior da capitania. São Paulo é beneficiada por sua posição geográfica estratégica, como encruzilhada natural das vias de circulação entre o interior e o litoral da colônia. Afirma então seu papel de centro comercial, através do qual se fazia o escoamento da produção, rumo ao porto de Santos.
De forma ainda intermitente, São Paulo começa a prosperar, e novas edificações são erguidas. Em 1750, com a expulsão dos jesuítas do Brasil, dessa vez por determinação do marquês de Pombal, os bens da ordem são confiscados. A igreja dos jesuítas, reconstruída no início do século XVIII, é transformada em sede da administração da capitania (agora, já separada de Minas Gerais e renomeada Capitania de São Paulo). Em 1765, é fundada a Casa de Ópera do Pátio do Colégio, primeiro teatro da cidade, e em 1775 é inaugurado o Cemitério dos Aflitos, primeira necrópole paulistana, destinada ao enterro de pobres, escravos e condenados à forca.[67] Também do século XVIII são o Mosteiro da Luz[68] (recolhimento de religiosas construído em taipa de pilão, a partir do projeto de Frei Galvão, de 1774) e a Igreja das Chagas do Seráfico Pai São Francisco (1787), entre outros. Em 1798, a cidade inaugura seu Jardim Botânico (atual Jardim da Luz).[69] Ainda no fim do século XVIII, por iniciativa do marechal José Arouche de Toledo Rendon, os limites urbanos da cidade são expandidos, com a abertura da rua São João e da ponte do Marechal, sobre o rio Anhangabaú. Começa a ser formado o Campo do Curro, atual Praça da República.
Período imperial
[editar | editar código]O primeiro reinado e a Faculdade de Direito
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Durante a maior parte de todo o século XIX, São Paulo preservaria as características de uma cidade provinciana, mas vê crescerem suas possibilidades de desenvolvimento após a transferência da Família Real Portuguesa para o Rio de Janeiro. A abertura dos portos às nações amigas, decretada por Dom João VI em 1808, dá novo alento à economia do litoral paulista, ao passo que interior da capitania continua a registrar relativa prosperidade com a plantação da cana-de-açúcar. A capital, situada em meio à rota obrigatória para o escoamento da produção do açúcar, assiste ao desenvolvimento do comércio.

Cresce a importância política da capitania (que se torna província em 1821), e a cidade de São Paulo serve de palco para acontecimentos de grande importância na história do país. Entre os mais destacados nomes da campanha pela independência brasileira figurou um paulista, José Bonifácio de Andrada e Silva. E foi na capital paulista, à margens do riacho do Ipiranga, que Dom Pedro I proclamou a independência do Brasil. Também vivia na cidade a mais célebre amante do imperador, a marquesa de Santos. Construído em fins do século XVIII, o Solar da Marquesa de Santos foi tombado em 1971 pelo CONDEPHAAT enquanto parte do patrimônio histórico do estado de São Paulo.[70][71]
Após a independência, São Paulo recebeu o título de "Imperial Cidade", outorgado por D. Pedro I em 1823. Em 1825, é criada a Biblioteca Pública Oficial de São Paulo, a primeira da província. Em 1827, é lançado o primeiro periódico da cidade, O Farol Paulistano. Em 1828, é inaugurada a Faculdade de Direito do Largo São Francisco. Trata-se da mais antiga instituição de ensino jurídico do país, ao lado da Faculdade de Direito de Olinda, ambas instituídas por decreto imperial de 1827. Após a instalação da faculdade, a cidade recebe o título de "Imperial Cidade e Burgo dos Estudantes de São Paulo de Piratininga". O consequente afluxo de mestres e estudantes ocasiona uma radical mudança no cotidiano da cidade. Além de demandar a construção de hotéis, restaurantes e núcleos artísticos, a aglomeração de acadêmicos enriquece a vida cultural paulistana. Ao longo da história, a faculdade (incorporada à USP em 1934) formou parte considerável da elite intelectual e política brasileira, e seu edifício (instalado no local do antigo convento de São Francisco) foi palco de atos e manifestações públicas relacionadas a inúmeros fatos da vida política do país.

Em 1830, o jornalista Libero Badaró, escritor do liberal Observador Constitucional (segundo periódico mais antigo da cidade, fundado em 1828), escreve artigo comentando sobre a Revolução de 1830, na França, que levou à deposição de Carlos X, em que exortava os brasileiros a seguirem o exemplo dos franceses. Logo em seguida, estudantes da Faculdade de Direito realizam manifestações públicas de apoio às ideias republicanas expressas no artigo do jornalista, e são ameaçados legalmente. O Observador Constitucional abre campanha em favor dos estudantes, e os ânimos se exaltam. Em 20 de novembro deste mesmo ano, Líbero Badaró é assassinado em uma emboscada. A repercussão na cidade foi imediata: cinco mil pessoas comparecem ao enterro, e o clamor por justiça leva à prisão do ouvidor Cândido Japiaçu, acusado de envolvimento no assassinato. A consequência principal do episódio é o reforço ao desgaste político de Dom Pedro I, que por esta e por outras razões, renuncia ao trono no ano seguinte.
O segundo reinado e o ciclo do café
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Desde as primeiras décadas do século XIX, a queda dos preços do açúcar nos mercados internacionais havia motivado o cultivo do café no Brasil. Vindo do Rio de Janeiro, o café começou a ser extensivamente cultivado em São Paulo, sobretudo na região do Vale do Paraíba. Em 1850, o café já era o principal produto exportado por São Paulo. Do Vale do Paraíba, os cafezais se espalharam pelas terras roxas do oeste paulista, antes ocupadas com a cana-de-açúcar (Rio Claro, Campinas e Jaú), enriquecendo a província.[72] A partir do reinado de D. Pedro II, a cidade ganha novo impulso com o desenvolvimento da economia cafeeira: os setores de comércio e de serviços aumentam consideravelmente e observa-se a formação de uma expressiva burguesia.
Muitos fazendeiros prosperam, com lucros provenientes da utilização do trabalho assalariado e do emprego de mão-de-obra imigrante. A abundância de recursos financeiros propicia a realização de grandes investimentos, a maior parte custeada pela iniciativa privada. São abertas várias ferrovias, interligando a cidade de São Paulo às principais áreas produtoras da província e ao porto de Santos: a primeira é a São Paulo Railway, inaugurada em 1867, à qual se segue a Estrada de Ferro Sorocabana, entregue em 1870. Ao mesmo tempo, em áreas mais distantes do centro da cidade, as quais posteriormente seriam alcançados pela vertiginosa expansão urbana do século XX, um modo de vida rural ainda predominava, com diversas fazendas distribuídas por esse território.[73][74][75][76][77][78]
No primeiro censo nacional, realizado em 1872, São Paulo contabilizava 31 385 habitantes. A cidade ganha casas exportadoras e vários bancos de financiamento. Sua fisionomia começa a mudar: o casario baixo e acanhado começa a ceder lugar a edificações maiores e tipicamente urbanas. Com vistas a garantir a salubridade, é inaugurado, em 1858, o Cemitério da Consolação, o mais antigo em funcionamento da cidade. Em 1865, é fundado o Teatro São José. Em 1872, são instalados os serviços de abastecimento de água, esgoto e iluminação a gás, e é criado o sistema de transporte com bondes de tração animal. Em 1884, começam a funcionar as primeiras linhas telefônicas. Para suprir as necessidades educacionais da crescente elite paulistana e minorar os problemas provenientes da falta de habilitação técnica, a iniciativa privada inaugura as primeiras instituições de ensino (Instituto Presbiteriano Mackenzie, em 1870; Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo, em 1873; Escola Alemã, em 1878).

Após a década de 1880, o café teve nova valorização internacional. Os fazendeiros paulistas, entretanto, tinham de lidar com o problema da escassez de trabalhadores. Após a promulgação da Lei Eusébio de Queirós e a consequente abolição do tráfico negreiro, ocorrida em 1850, os negros escravizados tornaram-se escassos e cada vez mais caros. Para substituí-los, começaram a chegar os imigrantes, sobretudo italianos. Um número significativo desses imigrantes fixou-se na própria capital, empregando-se nas primeiras indústrias que se instalavam nos bairros do Brás e da Mooca, a partir de investimentos provenientes dos lucros obtidos pelos empresários do setor cafeicultor. Em 1882, é fundada a Hospedaria dos Imigrantes, a princípio no Bom Retiro (1882) e posteriormente na Mooca (1885).

A riqueza proveniente dos cafezais e de uma indústria ainda incipiente sustentou a liderança paulista no movimento republicano. Em 1873, realiza-se em Itu a primeira convenção republicana do Brasil, e é criado o Partido Republicano Paulista (PRP), que utilizará o periódico Correio Paulistano como veículo oficial. Com a extinção da escravidão após a promulgação da Lei Áurea, em 1888, os fazendeiros paulistas exigem indenização pela perda de propriedade. Sem conseguir, aderem ao movimento republicano como forma de pressão. O império perde sua última base de sustentação (crises políticas e econômicas iniciadas ou agravadas após a Guerra do Paraguai já haviam afastado a igreja e os militares da base de apoio da monarquia) e a república é proclamada no Rio de Janeiro, a 15 de novembro de 1889.
República Velha
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Com o fim do Segundo Reinado que a cidade de São Paulo, assim como o estado de São Paulo, tira grande proveito da situação e tem crescimento econômico e populacional fabulosos, fruto da política do café com leite e de mudanças estruturais do federalismo no Brasil pelo estado de São Paulo, com a ajuda de Minas Gerais. Em 1890, a cidade contava com cerca de 65 000 habitantes, contingente populacional que chegou a 240 000 no ano de 1900.[79]
O auge do período do café é representado pela construção da segunda Estação da Luz (edifício que hoje recebe tal denominação) no fim do século XIX. Neste período, o centro financeiro da cidade desloca-se de seu centro histórico (região chamada de "Triângulo Histórico") para áreas mais a Oeste. O vale do rio Anhangabaú é ajardinado e a região do outro lado do rio passa a ser conhecida como Centro Novo. Os melhoramentos realizados na cidade pelos administradores João Teodoro Xavier e Antônio da Silva Prado contribuem para o clima de desenvolvimento: estudiosos consideram que a cidade inteira foi demolida e reconstruída. O processo de urbanização paulistano da virada do século XIX para o XX é reflexo direto desse contexto, aglutinando antigos aldeamentos (como o atual distrito de Pinheiros) anteriormente distantes do centro original de São Paulo.
Neste período a cidade passa a ser chamada, por estes estudiosos como a "cidade da alvenaria", visto que o sistema construtivo adotado passa a ser a alvenaria, especialmente aquela importada da Europa. Tal mudança altera profundamente a paisagem da cidade: seus habitantes consideram os estilos arquitetônicos do período colonial como "antiquados" e "provincianos" e passam a adotar o ecletismo possibilitado pela alvenaria. O atual edifício da Pinacoteca do Estado (construído em 1900 para sediar o Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo) é exemplar deste período da cidade. Essas profundas mudanças na sociedade paulistana também se manifestaram nos costumes e práticas domésticas, tornando-se mais comum o uso de louças finas pelas famílias paulistanas de classe média, bem como pelo surgimento de edificações residenciais de alvenaria.[80][81][82][83][84][85][86][87][88]
Século XX
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Com o crescimento industrial da cidade, no século XIX e XX, a sua área urbanizada passou a aumentar em ritmos acelerados, sendo que alguns bairros residenciais foram construídos em lugares de chácaras. O grande surto industrial se deu durante a Segunda Guerra Mundial, devido à crise na cafeicultura e às restrições ao comércio internacional, o que fez a cidade ter uma taxa de crescimento muito elevada até os dias atuais. Uma das indústrias de maior destaque nesse período é o conglomerado conhecido como Indústrias Reunidas Fábrica Matarazzo, a qual tinha seu parque industrial de cerca de 100 000 metros quadrados localizado no bairro da Água Branca, o qual funcionou entre as décadas de 1920 e 1980.
O fim da República Velha, assim como as seguidas crises econômicas que abalaram o café enquanto commodity na primeira metade do século XX, representam um marco político não só nacional, mas também da própria cidade de São Paulo. Nesse período, movimentos como a Greve Geral de 1917 e a Revolta Paulista de 1924 simbolizam a dimensão das manifestações populares que já ocorriam em São Paulo, bem como a disposição do governo federal em reprimir de forma veemente tais insurreições, ainda que à custa de parte da infraestrutura urbana paulistana.[89]
Revolta paulista de 1924
[editar | editar código]Em 1924, durante a presidência estadual de Carlos de Campos, ocorre em São Paulo, tanto na capital quanto no interior, a Revolução de 1924, que obriga Carlos de Campos a se retirar da capital. Acontecem destruições e depredações e bombardeiro. A capital paulista foi palco do maior conflito urbano da história do Brasil, em cenas que lembravam a Primeira Guerra Mundial, com explosões de bombas, moradias e prédios destruídos, bombardeios por aviões, soldados com metralhadoras, população fugindo pelas ruas, tanques de guerra cruzando a cidade e trincheiras abertas nas ruas.[90] Os rebeldes são derrotados e rumam para o sul do Brasil.[91]
Revolução Constitucionalista de 1932
[editar | editar código]Por conseguinte, a chamada Revolução Constitucionalista de 1932 representa um choque mais amplo de interesses políticos, no qual parte da elite paulista e paulistana contestou a perda do poder político em escala nacional após a deposição de Washington Luís.[92] Apesar da derrota paulista, um fato revelador da manutenção do prestígio político e econômico da elite paulistana foi a criação da Universidade de São Paulo em 1934, originalmente criada com a função de fornecer instrução de excelência para essa mesma elite, recebendo diversos professores estrangeiros de grande prestígio em seus anos iniciais.[93]
Segunda metade do Século XX
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Em 1953, ocorre a primeira eleição direta para a prefeitura da cidade, sendo eleito o candidato Jânio Quadros com cerca de dois terços de votos.[94] Em sua primeira gestão, que durou até 1955, São Paulo completou quatrocentos anos de fundação, em 25 de janeiro de 1954. Neste dia, foi inaugurada a atual Catedral da Sé, dedicada somente em 5 de setembro seguinte.[95] Em 21 de agosto daquele ano, são inaugurados o Parque Ibirapuera e o Monumento às Bandeiras.[96] Em 9 de julho de 1955, é inaugurado o Obelisco de São Paulo, como parte das comemorações dos 23 anos da Revolução de 1932, embora o monumento só tenha sido concluído em 1970.[97]
Segundo o censo realizado em 1960, a cidade de São Paulo contava com uma população de 3 825 350 habitantes. Nessa época, o município já era considerado o mais populoso do Brasil, também concentrando a maior parte da produção industrial e atividade econômica do país.[79] Esse crescimento acelerado na primeira metade do século XX se deveu não só a imigração estrangeira, mas também à chegada de brasileiros de diversas regiões, em sua maioria atraídos pela demanda de mão-de-obra das indústrias localizadas em São Paulo.[98] Nas palavras do geógrafo Pasquale Petrone, o qual escreveu em 1951 justamente sobre a rápida modificação urbana pela qual São Paulo esteve submetida no século XX:
“No que se refere à construção de prédios, parece não existir nenhuma cidade que a iguale: não há rua que não ofereça um telhado novo, raras são as que não assistem à construção de um prédio. Prédios residenciais, finos ou modestos, palacetes ou bangalôs estandartizados, arranha-céus, de 8 a 10 andares e gigantes de mais de 25 andares, com sua estrutura de cimento armado. Enquanto em Nova York constrói-se, a cada ano, uma casa para cada grupo de 423 habitantes, em Buenos Aires para 134, em São Paulo registra-se a média de 102. Nos últimos anos, o aumento médio anual de prédios foi mais de 18 000, embora já se tenha registrado um total de mais de 24 000 por ano. Pode-se afirmar, sem receio de errar, que se constrói em São Paulo uma casa em cada 20 minutos!"[99]
Com a instauração do regime militar no Brasil em 1964, Prestes Maia é mantido no cargo de prefeito, administrando a cidade até 7 de abril de 1965, poucos dias antes de sua morte. Em 8 de abril, assume a prefeitura José Vicente Faria Lima, que governou São Paulo até 1969, ano em que foi editado o Ato Institucional n° 3, que acabou com as eleições diretas para prefeito, fazendo com que São Paulo passasse a ter seus prefeitos nomeados pelo governador do estado. Foram eles Paulo Maluf (1969-1971), Figueiredo Ferraz (1971-1973), Miguel Colasuonno (1973-1975), Olavo Setúbal (1977-1979), Reinaldo de Barros (1979-1982), Antônio Salim Curiati (1982-1983) e Mário Covas (1983-1985).[100]
Em 27 de novembro de 1983, São Paulo foi palco pela primeira vez das Diretas Já, um movimento que reuniu milhares de pessoas em frente ao estádio do Pacaembu e que reivindicava a volta das eleições diretas para Presidente da República.[102][103] Em 25 de janeiro de 1984, na Praça da Sé, a cidade foi pela segunda vez palco do movimento[103][104] e pela terceira vez em 16 de abril seguinte, em uma passeata desde a Praça da Sé até o Vale do Anhangabaú.[101]
Por força da emenda constitucional 25, de maio de 1985, os municípios voltaram a eleger seus prefeitos diretamente. Sendo assim, em 15 de novembro de 1985, São Paulo realizou a primeira eleição direta desde 1969, sendo eleito o candidato Jânio Quadros, ex-prefeito da cidade, ex-governador do estado de São Paulo e ex-presidente da República.[105][106] Nas eleições de 1988, São Paulo elegeu a primeira mulher prefeita, Luiza Erundina, à frente do executivo municipal até 1992.[107]

Em 7 de setembro de 1989 é inaugurado o Parque da Independência.[108] De 1993 a 1997, o ex-prefeito Paulo Maluf administrou a cidade pela segunda vez, sendo sucedido por Celso Pitta (1997-2000).
Século XXI
[editar | editar código]Anos 2000
[editar | editar código]Entre 2000 e 2009, a cidade consolidou-se como a maior metrópole brasileira e um dos principais centros financeiros, culturais e de serviços da América Latina, ao mesmo tempo em que enfrentou desafios estruturais relacionados à mobilidade urbana, habitação, desigualdade territorial, segurança pública, enchentes, poluição, expansão imobiliária e governança metropolitana.[109][110] O período foi marcado por mudanças administrativas, novas políticas urbanas, obras de transporte, fortalecimento de equipamentos culturais e educacionais, queda dos homicídios, crescimento do setor de serviços e intensificação das desigualdades entre o centro expandido e as periferias.[111]
No plano demográfico, a cidade entrou nos anos 2000 com população superior a dez milhões de habitantes. O Censo demográfico do Brasil de 2000 registrou 10 434 252 moradores no município, enquanto o Censo de 2010 registrou 11 253 503 habitantes, indicando crescimento mais lento do que nas décadas de urbanização acelerada do século XX.[112] Essa desaceleração estava associada à redução das taxas de fecundidade, ao encarecimento da moradia nas áreas centrais e intermediárias, à expansão de municípios da Região Metropolitana de São Paulo e à redistribuição populacional para periferias urbanas e cidades vizinhas.[113] A cidade continuou exercendo forte centralidade econômica e funcional sobre a metrópole, concentrando empregos, serviços especializados, equipamentos de saúde, universidades, sedes empresariais, comércio atacadista e atividades culturais.[114]
A política municipal dos anos 2000 foi marcada por três administrações principais. Marta Suplicy, do Partido dos Trabalhadores, governou a cidade entre 2001 e 2004; José Serra, do Partido da Social Democracia Brasileira, assumiu a prefeitura em 2005 e deixou o cargo em 2006 para concorrer ao governo estadual; e Gilberto Kassab, então vice-prefeito, assumiu a prefeitura em 2006 e foi eleito para novo mandato em 2008.[115] Essas gestões expressaram diferentes prioridades, mas todas lidaram com problemas comuns a uma metrópole de grande escala: financiamento urbano, transporte coletivo, expansão de equipamentos sociais, regulamentação do espaço público, revitalização do centro, controle da publicidade externa, segurança, habitação e relação com o governo estadual e federal.[116]
Um dos marcos institucionais do período foi o Plano Diretor Estratégico do Município de São Paulo, aprovado pela Lei municipal n.º 13.430, de 2002.[117] Elaborado em contexto posterior ao Estatuto da Cidade, o plano incorporou instrumentos urbanísticos voltados à função social da propriedade, às zonas especiais de interesse social, à regularização fundiária, à política habitacional, ao adensamento orientado por infraestrutura e às operações urbanas.[118] O plano de 2002 buscava responder a uma cidade fragmentada por desigualdades de acesso à terra, infraestrutura, transporte e serviços públicos, mas sua implementação foi condicionada por disputas políticas, interesses imobiliários, capacidade administrativa e limitações financeiras.[119]
A gestão Marta Suplicy ficou associada à criação do Bilhete Único, implantado em 2004, que permitiu integração tarifária no sistema municipal de ônibus dentro de intervalo temporal definido.[120] A medida alterou a lógica de pagamento do transporte coletivo, beneficiando especialmente usuários que dependiam de mais de uma condução para se deslocar entre periferias e áreas de emprego.[121] O período também marcou a implantação dos Centros Educacionais Unificados (CEUs), concebidos como equipamentos integrados de educação, cultura, esporte e lazer em áreas periféricas.[122] Os CEUs reuniam escolas, bibliotecas, teatros, quadras, piscinas e atividades comunitárias, articulando política educacional e política urbana em regiões historicamente carentes de equipamentos públicos.[123]
A mobilidade urbana permaneceu como um dos maiores desafios da década. A cidade convivia com congestionamentos extensos, dependência de ônibus e automóveis, baixa participação relativa do transporte sobre trilhos e forte desigualdade nos tempos de deslocamento entre áreas centrais e periféricas. Em análises sobre a metrópole paulistana, os deslocamentos diários são descritos como parte da própria dinâmica econômica e social da cidade, pois condicionam o acesso ao trabalho, à escola, à universidade, aos serviços de saúde, ao comércio e ao lazer.[124] A expansão urbana periférica, a concentração de empregos no centro expandido e em eixos empresariais, a dependência histórica do modal rodoviário e o crescimento da frota individual contribuíram para tornar os deslocamentos longos e desiguais.[125]
O predomínio do transporte individual agravou problemas já estruturais da metrópole. Estudo divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada apontou que, no Brasil, a frota de veículos individuais motorizados cresceu 331% entre 2001 e 2020, ao mesmo tempo em que houve redução da demanda por transporte coletivo e aumento dos tempos de deslocamento nas metrópoles.[126] Esse padrão afetou especialmente a população de baixa renda, que depende mais do transporte público e tende a morar mais longe das áreas com maior concentração de empregos e serviços.[127] A consequência foi a formação de uma mobilidade urbana excludente, na qual o tempo gasto em deslocamentos reforça desigualdades de renda, acesso à educação, saúde, cultura e oportunidades profissionais.
Os congestionamentos também produziram impactos econômicos e ambientais. O Jornal da USP destacou que os congestionamentos representam perdas relevantes de produtividade e podem custar cerca de 1,5% do produto interno bruto brasileiro, além de incentivar o uso do transporte individual e reduzir a eficiência das cidades.[128] Em São Paulo, esses efeitos foram percebidos em atrasos, aumento do custo logístico, maior emissão de poluentes, estresse cotidiano, perda de tempo livre e pressão sobre a saúde pública. A mobilidade tornou-se, assim, não apenas um problema de trânsito, mas uma questão de planejamento urbano, justiça social, competitividade econômica e sustentabilidade ambiental.
A década também foi marcada por tentativas de reorganizar a circulação urbana. Entre as políticas discutidas ou implementadas estavam a ampliação de corredores e faixas exclusivas de ônibus, a expansão da rede cicloviária, a integração tarifária, a modernização da frota, a ampliação de linhas de metrô e trem metropolitano, a melhoria de terminais e o incentivo a modos ativos de deslocamento, como a bicicleta e a caminhada. Essas medidas dialogavam com a Política Nacional de Mobilidade Urbana, instituída pela Lei n.º 12.587, de 2012, que estabelece prioridade aos modos não motorizados e ao transporte público coletivo sobre o transporte individual motorizado.[129]
Apesar desses avanços, a estrutura urbana continuou impondo limites. A distância entre moradia e emprego permaneceu elevada para muitos moradores das periferias, enquanto a concentração de atividades econômicas em áreas como Avenida Paulista, Faria Lima, Berrini, Pinheiros e centro expandido manteve forte pressão sobre os eixos de transporte. A mobilidade paulistana, portanto, passou a ser compreendida cada vez mais como parte de uma agenda integrada: não bastava ampliar vias ou reorganizar linhas de ônibus; era necessário aproximar moradia, emprego, equipamentos públicos e serviços, além de reduzir a dependência do automóvel e fortalecer o transporte coletivo de alta capacidade.
Anos 2010
[editar | editar código]Os anos 2010 foram marcados pela combinação entre reorganização urbana, grandes protestos, expansão de políticas de mobilidade, crise hídrica, transformações no uso do espaço público, consolidação da cidade como centro de serviços e inovação e persistência de profundas desigualdades territoriais. A década começou com São Paulo já consolidada como a maior cidade brasileira em população e como o principal centro econômico do país, com mais de 11 milhões de habitantes no Censo demográfico do Brasil de 2010.[130] Ao longo do período, a cidade manteve sua centralidade financeira, cultural, universitária e tecnológica, mas enfrentou problemas estruturais relacionados a mobilidade urbana, habitação, abastecimento de água, violência, segregação socioespacial, uso do solo e acesso desigual a serviços públicos.[131][132]
Politicamente, a década atravessou quatro administrações municipais. Gilberto Kassab concluiu seu segundo mandato em 2012, após governar a cidade desde 2006.[133] Fernando Haddad, do Partido dos Trabalhadores, venceu a eleição municipal de 2012 e governou entre 2013 e 2016, período em que foram aprovados o novo Plano Diretor Estratégico, a nova Lei de Zoneamento, políticas de requalificação urbana, expansão de faixas exclusivas de ônibus, ampliação da malha cicloviária e abertura da Avenida Paulista para pedestres aos domingos.[134][135] João Doria, do Partido da Social Democracia Brasileira, foi eleito em 2016, tomou posse em 2017 e deixou a prefeitura em 2018 para disputar o governo estadual; seu vice, Bruno Covas, assumiu o cargo e governou a cidade no final da década.[136][137]
A mobilidade urbana permaneceu como um dos maiores desafios da década. A cidade convivia com congestionamentos extensos, dependência de ônibus e automóveis, baixa participação relativa do transporte sobre trilhos e forte desigualdade nos tempos de deslocamento entre áreas centrais e periféricas.[138] A expansão urbana periférica, a concentração de empregos no centro expandido e em eixos empresariais, como Avenida Paulista, Avenida Brigadeiro Faria Lima, Berrini e Marginal Pinheiros, e a dependência histórica do modal rodoviário contribuíram para tornar os deslocamentos longos e desiguais.[139][140] A Política Nacional de Mobilidade Urbana, instituída em 2012, reforçou diretrizes de prioridade ao transporte público coletivo e aos modos não motorizados, influenciando debates municipais sobre corredores de ônibus, ciclovias, calçadas, transporte ativo e integração modal.[141]
A década foi profundamente marcada pelas Jornadas de Junho de 2013, que tiveram em São Paulo um de seus principais pontos de origem. Os protestos começaram em reação ao aumento das tarifas de ônibus, metrô e trens, inicialmente convocados pelo Movimento Passe Livre, e se ampliaram para uma mobilização nacional com pautas diversas, incluindo críticas à qualidade dos serviços públicos, à repressão policial, à corrupção e aos gastos com megaeventos.[142][143] A repressão a manifestações no centro da cidade e na Avenida Paulista provocou forte repercussão pública, ampliando a adesão aos atos e transformando a mobilidade urbana em tema central da política paulistana.[144] Após a pressão popular, prefeitura e governo estadual revogaram o aumento das tarifas naquele ano.[145]
As políticas de mobilidade dos anos seguintes foram objeto de disputas intensas. A gestão Haddad ampliou faixas exclusivas de ônibus, implantou ciclovias e ciclofaixas e reduziu velocidades máximas em vias expressas, como as marginais Tietê e Pinheiros, sob justificativa de segurança viária.[146][147] A redução de velocidades gerou polêmica entre defensores da segurança no trânsito e críticos preocupados com fluidez viária, mas foi associada por estudos e autoridades municipais à diminuição de mortes no trânsito.[148] A partir de 2017, a gestão Doria reviu parte dessas medidas, elevando limites de velocidade nas marginais e reposicionando a política de mobilidade sob discurso de eficiência e gestão.[149]
O transporte sobre trilhos avançou, mas em ritmo insuficiente diante da demanda metropolitana. A Linha 4-Amarela ampliou sua operação ao longo da década, consolidando a ligação entre a região da Luz, Paulista, Pinheiros e Butantã, enquanto a Linha 5-Lilás passou por expansão decisiva até Chácara Klabin, integrando-se a outras linhas e melhorando a conexão da zona sul com a rede metroviária.[150][151] A Linha 15-Prata, em monotrilho, começou a operar parcialmente na zona leste, buscando ampliar a capacidade de transporte em uma das regiões mais populosas da cidade.[152] Mesmo com essas expansões, a rede metroferroviária continuou limitada diante da extensão territorial e populacional da cidade e da Região Metropolitana de São Paulo.[153]
No campo urbanístico, a aprovação do Plano Diretor Estratégico do Município de São Paulo de 2014 representou uma das mudanças institucionais mais relevantes da década. O plano propôs orientar o crescimento da cidade ao redor dos eixos de transporte público, ampliar a função social da propriedade, reforçar instrumentos urbanísticos, estimular habitação de interesse social, preservar áreas ambientais e reorganizar a relação entre adensamento, mobilidade e uso do solo.[154] Em 2016, a nova Lei de Parcelamento, Uso e Ocupação do Solo, conhecida como Lei de Zoneamento, detalhou parâmetros urbanísticos e regras de ocupação do território.[155] Essas normas procuraram responder à expansão imobiliária, à verticalização, à necessidade de habitação social e ao desequilíbrio histórico entre áreas de moradia popular e regiões concentradoras de emprego.[156]
A questão habitacional seguiu como um dos grandes impasses da cidade. Ao longo da década, São Paulo registrou forte presença de movimentos de moradia, ocupações de edifícios vazios, disputas por terrenos bem localizados e debates sobre locação social, habitação de interesse social e instrumentos de combate à ociosidade imobiliária.[157] O incêndio e desabamento do Edifício Wilton Paes de Almeida, no Largo do Paissandu, em 1.º de maio de 2018, tornou-se símbolo das precariedades habitacionais, da ocupação de imóveis abandonados e da ausência de solução estrutural para famílias sem moradia adequada no centro da cidade.[158] A tragédia reabriu o debate sobre prédios ociosos, fiscalização, políticas de habitação social e direito à cidade.[159]
A década também foi marcada pela crise hídrica de 2014 e 2015, uma das mais graves da história recente da cidade e da região metropolitana. A escassez de chuvas afetou o Sistema Cantareira, principal manancial de abastecimento da Grande São Paulo, levando ao uso do chamado volume morto e a medidas de redução de consumo, bônus tarifário, obras emergenciais e interligações de sistemas.[160][161] A crise expôs a vulnerabilidade do abastecimento metropolitano, a dependência de sistemas interligados, a pressão urbana sobre mananciais e a necessidade de planejamento de longo prazo em saneamento, recuperação ambiental e gestão de demanda.[162]
A realização da Copa do Mundo FIFA de 2014 teve impacto urbano e simbólico na zona leste. A Arena Corinthians, em Itaquera, recebeu a partida de abertura do torneio e tornou-se o principal legado esportivo do evento na cidade.[163] A construção do estádio foi acompanhada por obras viárias, investimentos no entorno e debates sobre o uso de recursos públicos, incentivos fiscais, desenvolvimento regional e promessa de dinamização econômica da zona leste.[164] O evento também ocorreu em meio a protestos contra gastos públicos e a críticas sobre prioridades urbanas, especialmente após a experiência das manifestações de 2013.[165]
O espaço público tornou-se objeto de disputa e experimentação. A abertura da Avenida Paulista aos domingos para pedestres, consolidada durante a gestão Haddad, transformou a via em espaço de lazer, manifestações políticas, atividades culturais e convivência urbana.[166] A medida foi parte de um debate mais amplo sobre ruas abertas, apropriação coletiva do espaço urbano, caminhabilidade, cultura de rua, segurança viária e redução da centralidade do automóvel.[167] Ao longo da década, praças, parques, largos, avenidas e espaços residuais passaram a ser ocupados por feiras, manifestações, eventos culturais, coletivos urbanos, ciclistas, artistas de rua e movimentos sociais, evidenciando a tensão entre controle urbano, comércio, lazer, protesto e direito à cidade.[168]
A região central continuou a concentrar disputas sobre moradia, patrimônio, segurança, comércio popular, população em situação de rua e uso de drogas. A área conhecida como Cracolândia, na região da Luz, permaneceu como um dos temas mais controversos da política urbana e social paulistana.[169] A gestão Haddad implementou o programa De Braços Abertos, que combinava moradia em hotéis, trabalho remunerado, alimentação e cuidado em saúde para usuários de crack.[170] A gestão Doria substituiu a abordagem por uma política chamada Redenção e promoveu operações policiais de grande repercussão, criticadas por especialistas e movimentos sociais por deslocarem usuários sem resolver a questão estrutural de moradia, saúde mental, redução de danos e assistência social.[171][172]
No campo educacional e juvenil, os protestos de estudantes secundaristas em 2015 ganharam grande importância política. Estudantes da rede estadual ocuparam escolas contra a reorganização escolar proposta pelo governo estadual, que previa fechamento e reestruturação de unidades.[173] As ocupações ocorreram em várias regiões do estado, com forte presença na capital, e se tornaram referência de mobilização juvenil, autogestão estudantil e contestação de políticas educacionais conduzidas sem diálogo suficiente com comunidades escolares.[174] O episódio revelou a centralidade da educação pública nos conflitos urbanos e a capacidade de mobilização política de adolescentes e jovens.[175]
A economia paulistana passou por transformações associadas à continuidade da desindustrialização relativa e ao fortalecimento de serviços financeiros, tecnologia, educação, saúde, economia criativa, comércio, gastronomia, turismo de negócios e inovação.[176] A cidade consolidou ecossistemas de startups, coworkings, fintechs, centros universitários, hospitais privados, escritórios de advocacia, consultorias e empresas de tecnologia, especialmente em eixos como Faria Lima, Vila Olímpia, Berrini, Paulista e Pinheiros.[177] Ao mesmo tempo, bairros periféricos permaneceram marcados por informalidade, longos deslocamentos, déficit de infraestrutura e menor acesso a empregos qualificados, evidenciando a desigualdade entre centro expandido e periferias.[178]
A cultura urbana paulistana manteve grande vitalidade nos anos 2010. A cidade continuou a sediar eventos de grande porte, como a Virada Cultural, a Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, a Bienal Internacional de Arte de São Paulo, mostras de cinema, festivais de música, feiras literárias e eventos gastronômicos.[179][180][181] Ao mesmo tempo, coletivos periféricos, saraus, slams, batalhas de rap, ocupações culturais e movimentos de arte urbana ampliaram a visibilidade de produções culturais fora dos circuitos tradicionais do centro expandido.[182] Essa diversidade cultural refletiu tanto a centralidade global da cidade quanto a emergência de linguagens periféricas e juvenis no debate público.[183]
A segurança pública apresentou tendências contraditórias. A cidade havia reduzido significativamente suas taxas de homicídio desde os anos 2000, fenômeno analisado por pesquisadores a partir de fatores como mudanças demográficas, políticas de segurança, atuação de organizações criminosas, encarceramento, controle territorial e transformações sociais.[184] Ainda assim, a violência urbana continuou a afetar desigualmente jovens negros, moradores de periferias, população em situação de rua, usuários de drogas e territórios com menor presença de serviços públicos.[185] A desigualdade de segurança se somava a desigualdades de mobilidade, moradia, saúde e educação, reforçando a dimensão territorial dos problemas urbanos.[186]
O meio ambiente urbano permaneceu como tema estratégico. A cidade enfrentou enchentes recorrentes, ilhas de calor, poluição do ar, pressão sobre áreas verdes e mananciais, além de conflitos entre expansão imobiliária, mobilidade e preservação ambiental.[187] As discussões sobre arborização, parques lineares, drenagem, rios urbanos, resíduos sólidos e mudanças climáticas ganharam força, especialmente após a crise hídrica e diante de eventos extremos cada vez mais frequentes.[188] O Plano Diretor de 2014 incorporou diretrizes ambientais, como proteção de áreas de mananciais, zonas especiais de preservação ambiental e estímulo à cidade compacta orientada pelo transporte público.[189]
No final dos anos 2010, São Paulo apresentava uma imagem ambivalente. De um lado, era uma metrópole globalizada, sede de universidades, hospitais, empresas, bancos, startups, eventos culturais, museus, restaurantes, redes de transporte em expansão e intensa vida política. De outro, continuava marcada por segregação socioespacial, déficit habitacional, precariedade em áreas periféricas, vulnerabilidade ambiental, desigualdade no acesso a serviços e longos deslocamentos diários.[190] A década deixou como legado reformas urbanísticas importantes, novos conflitos sobre mobilidade e espaço público, expansão de políticas de transporte ativo, maior centralidade da pauta ambiental, fortalecimento de movimentos sociais urbanos e evidências de que a história paulistana do século XXI continuava sendo definida pela tensão entre capacidade econômica e desigualdade urbana.[191]
Anos 2020
[editar | editar código]Os anos 2020 foram marcados pela pandemia de COVID-19, por mudanças políticas municipais, pelo agravamento de desigualdades sociais, por crises de moradia e população em situação de rua, pela revisão de instrumentos urbanísticos, por eventos climáticos extremos, por apagões de grande repercussão, pela continuidade das disputas sobre Cracolândia, mobilidade urbana, transporte coletivo, verticalização e uso do espaço público. A década começou com São Paulo como maior município do Brasil e principal centro econômico do país; no Censo demográfico do Brasil de 2022, o município registrou 11 451 245 habitantes, mantendo-se como a cidade mais populosa do território nacional.[192] Ao mesmo tempo, a cidade entrou nos anos 2020 com problemas estruturais persistentes, como desigualdade territorial, déficit habitacional, longos tempos de deslocamento, concentração de empregos no centro expandido e forte contraste entre distritos de alta renda e periferias urbanas.[193][194]
Pandemia de COVID-19
[editar | editar código]O primeiro caso confirmado de COVID-19 no Brasil foi registrado em São Paulo em 26 de fevereiro de 2020, em um paciente do sexo masculino, com 61 anos de idade, residente no bairro de Santana, que havia retornado de viagem à Itália.[195] A confirmação desse caso marcou o início de uma trajetória epidemiológica que, ao longo dos dois anos seguintes, resultaria em centenas de milhares de infecções e dezenas de milhares de mortes apenas no município paulistano. A Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo e a Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo passaram a monitorar a evolução da doença em tempo real, publicando boletins epidemiológicos diários que se tornaram referência para a gestão da crise em todo o país.[196]A trajetória epidemiológica da pandemia em São Paulo pode ser dividida em fases distintas, marcadas por ondas de transmissão de intensidade variável, intercaladas por períodos de relativa estabilização. A primeira onda, que se estendeu aproximadamente de março a setembro de 2020, caracterizou-se pela rápida disseminação do vírus a partir dos bairros centrais e de maior renda, seguida de uma progressão acelerada em direção às periferias, onde as condições de moradia, trabalho e acesso a serviços de saúde tornavam a população mais vulnerável.[197] A segunda onda, iniciada no final de 2020 e atingindo seu ápice no primeiro trimestre de 2021, foi a mais letal do período pré-vacinação em massa, levando o sistema de saúde municipal e estadual ao colapso e motivando a adoção de medidas restritivas de maior rigor por parte das autoridades.[198]
A cronologia da pandemia em São Paulo acompanhou, com algumas especificidades locais, a evolução global da crise sanitária. Em março de 2020, o governador do estado de São Paulo, João Doria, decretou estado de emergência e anunciou as primeiras medidas de distanciamento social, incluindo a suspensão das aulas presenciais nas redes pública e privada de ensino e a recomendação de fechamento do comércio não essencial.[199] O prefeito municipal, Bruno Covas, adotou medidas complementares no âmbito do município, reforçando as restrições à circulação e determinando o fechamento de parques, praças e equipamentos culturais públicos.[200]O Plano São Paulo, instituído pelo governo estadual em maio de 2020, estabeleceu um sistema de fases de reabertura econômica graduada, baseado em indicadores epidemiológicos como a taxa de ocupação de leitos de UTI, o número de novos casos e a capacidade de resposta do sistema de saúde.[201]
O município de São Paulo oscilou entre as diferentes fases do plano ao longo de 2020 e 2021, alternando períodos de maior abertura com retrocessos motivados pelo agravamento dos indicadores epidemiológicos. Em determinados momentos, a taxa de ocupação dos leitos de UTI na cidade ultrapassou 90%, gerando situação de colapso assistencial e obrigando as autoridades a adotar medidas emergenciais de ampliação da capacidade hospitalar.[202]O período compreendido entre janeiro e março de 2021 representou o momento mais crítico da pandemia em São Paulo, coincidindo com a disseminação da variante Gamma (P.1), identificada inicialmente em Manaus e caracterizada por maior transmissibilidade e capacidade de reinfecção.[203] Nesse período, o número diário de óbitos por COVID-19 no município atingiu patamares sem precedentes, e o sistema funerário da cidade enfrentou dificuldades para absorver a demanda, com filas de espera para sepultamento nos cemitérios municipais.[204] O governo estadual decretou, em março de 2021, a fase emergencial do Plano São Paulo, com restrições máximas à circulação e ao funcionamento do comércio, em vigor por três semanas consecutivas.[201]A partir do segundo semestre de 2021, com o avanço da campanha de vacinação, observou-se progressiva redução nos indicadores de gravidade da doença, embora a cidade ainda registrasse surtos localizados e a circulação de novas variantes do vírus, como a Delta e, posteriormente, a Ômicron, continuasse a representar desafios para a gestão sanitária.[205] A variante Ômicron, identificada no final de 2021, provocou nova onda de transmissão no início de 2022, caracterizada por elevado número de casos, mas com menor taxa de hospitalização e mortalidade em comparação com as ondas anteriores, em razão da imunidade adquirida pela vacinação e pela infecção prévia.[206]
Um dos aspectos mais documentados da pandemia em São Paulo foi a sua distribuição geograficamente desigual, que refletiu e amplificou as assimetrias socioespaciais preexistentes na cidade. Estudos realizados pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e por pesquisadores do Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo (IPT) demonstraram que, nas fases iniciais da pandemia, os casos confirmados concentravam-se nos bairros de maior renda, localizados nas zonas oeste e sudoeste da cidade, como Jardins, Moema e Itaim Bibi, cujos moradores tinham maior acesso a testes diagnósticos e maior capacidade de adotar o isolamento social.[207]
Contudo, à medida que a pandemia avançou, o perfil epidemiológico da cidade se transformou de maneira significativa. As regiões periféricas, especialmente a zona sul, a zona leste e partes da zona norte, passaram a concentrar proporcionalmente mais mortes e casos graves, em razão de fatores estruturais como a superlotação domiciliar, a dependência do transporte público coletivo, a maior prevalência de comorbidades como diabetes, hipertensão arterial e obesidade, e o menor acesso a serviços de saúde de qualidade.[208] Pesquisa publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo revelou que, na zona sul da cidade, aproximadamente um em cada cinco moradores havia contraído a doença em determinado período da pandemia, evidenciando a intensidade da transmissão nessas áreas.[209]
O mapeamento das mortes suspeitas por COVID-19 realizado pelo mesmo veículo de comunicação apontou que distritos como Grajaú, Cidade Tiradentes, Parelheiros e Iguatemi registravam taxas de mortalidade proporcionalmente superiores às dos distritos centrais, mesmo considerando as subnotificações inerentes ao período inicial da pandemia, quando a disponibilidade de testes era ainda muito limitada.[208] A subnotificação foi, aliás, um problema estrutural que afetou de maneira mais intensa as periferias, onde o acesso a unidades de saúde com capacidade diagnóstica era mais restrito e onde parte significativa das mortes ocorria em domicílio, sem confirmação laboratorial do agente etiológico.[210]A questão da mobilidade urbana desempenhou papel central na dinâmica de transmissão do vírus nas regiões periféricas.
Levantamento realizado pelo IPT em abril de 2020 identificou que distritos como Itaquera, Butantã, Grajaú e Santana apresentavam os maiores índices de circulação de pessoas durante o período de quarentena, em contraste com bairros de maior renda, onde a adesão ao isolamento era mais elevada.[211] Esse fenômeno estava diretamente relacionado à impossibilidade de adoção do trabalho remoto por parte de trabalhadores de setores como construção civil, serviços domésticos, comércio de alimentos e transporte, que continuaram a se deslocar diariamente mesmo durante os períodos de maior restrição.[212]
Dados históricos de movimentação urbana em São Paulo já indicavam, antes mesmo da pandemia, que regiões como Santana e Lapa figuravam entre as de maior fluxo de pessoas na cidade, em razão da concentração de terminais de transporte público, comércio e serviços.[213] Durante a pandemia, essa característica estrutural tornou essas regiões particularmente vulneráveis à transmissão do vírus, uma vez que a manutenção do fluxo de trabalhadores nos terminais de metrô e da CPTM criava condições propícias para a disseminação do SARS-CoV-2 em ambientes fechados e com aglomeração de pessoas.[211]
A pandemia de COVID-19 em São Paulo evidenciou, de maneira contundente, as desigualdades raciais e socioeconômicas que estruturam a cidade. Estudos conduzidos por pesquisadores da Universidade de São Paulo e da Universidade Estadual de Campinas demonstraram que a população negra — composta por pretos e pardos segundo a classificação do IBGE — apresentava taxas de mortalidade por COVID-19 proporcionalmente superiores às da população branca, mesmo após o controle de variáveis como idade e comorbidades.[214] Esse padrão refletia a sobreposição entre raça e classe social no contexto brasileiro, na medida em que a população negra estava sobrerrepresentada nas ocupações de maior exposição ao vírus, nas regiões periféricas com menor acesso a serviços de saúde e nas condições habitacionais mais precárias.[215]
A dimensão socioeconômica da vulnerabilidade à COVID-19 em São Paulo foi igualmente documentada por pesquisadores e veículos de comunicação. Trabalhadores informais, que representavam parcela expressiva da força de trabalho nas periferias da cidade, foram particularmente afetados pela pandemia, tanto em termos de exposição ao vírus — pela impossibilidade de adotar o isolamento social sem comprometer sua subsistência — quanto em termos de impacto econômico, pela perda de renda decorrente das medidas restritivas.[216] A Rede Nossa São Paulo, organização da sociedade civil que monitora indicadores de qualidade de vida na cidade, documentou o agravamento das condições de vida nas periferias durante a pandemia, com aumento da insegurança alimentar, do desemprego e da violência doméstica.[217]
A questão da insegurança alimentar merece destaque especial no contexto da pandemia em São Paulo. Reportagem publicada pela Folha de S.Paulo em março de 2021, no período considerado o mais grave da pandemia, documentou o avanço da fome em diferentes regiões da cidade, com aumento expressivo na demanda por cestas básicas, refeições em restaurantes populares e atendimento em organizações assistenciais.[218] O fenômeno atingiu de maneira mais intensa as famílias das periferias, onde a combinação de desemprego, informalidade e ausência de redes de proteção social robustas criava situações de extrema vulnerabilidade.[218] Organizações como o Banco de Alimentos de São Paulo e redes de solidariedade comunitária ampliaram significativamente sua atuação durante esse período, tornando-se referências essenciais para a população em situação de insegurança alimentar.[219]
O sistema de saúde do município de São Paulo, composto por uma extensa rede de equipamentos públicos e privados, foi submetido a pressão sem precedentes ao longo da pandemia. A Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo coordenou a resposta municipal, articulando a atuação das Unidades Básicas de Saúde (UBS), das Assistências Médicas Ambulatoriais (AMAs), dos prontos-socorros e dos hospitais municipais, além de estabelecer parcerias com a rede estadual e privada para ampliar a capacidade de atendimento.[220] O Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, maior complexo hospitalar da América Latina, desempenhou papel central no tratamento de casos graves e na produção de conhecimento científico sobre a doença.[221]
A ampliação da capacidade hospitalar foi uma das principais estratégias adotadas pelas autoridades para fazer frente à demanda crescente por internações. O governo estadual instalou hospitais de campanha em diferentes pontos da cidade e da região metropolitana, incluindo o Hospital de Campanha do Anhembi, inaugurado em abril de 2020 com capacidade para centenas de leitos de enfermaria e UTI.[222] Além disso, leitos de UTI foram criados em hospitais municipais e estaduais, e acordos foram firmados com hospitais privados para a disponibilização de leitos ao Sistema Único de Saúde (SUS) durante os períodos de maior pressão sobre o sistema.[223]
Os hospitais privados de São Paulo também registraram aumento expressivo nas internações por COVID-19, especialmente durante as ondas mais intensas da pandemia. Reportagem do jornal O Estado de S. Paulo documentou o crescimento das internações na rede privada, com ocupação de leitos de UTI atingindo níveis críticos mesmo em hospitais de referência como o Hospital Albert Einstein, o Hospital Sírio-Libanês e o Hospital Oswaldo Cruz.[223] Esse fenômeno evidenciou que a pandemia não poupou nenhum segmento da população, embora as consequências para os pacientes da rede pública e das periferias fossem, em geral, mais graves, em razão do menor acesso a cuidados intensivos de qualidade e da maior prevalência de comorbidades.[223]
A Atenção Primária à Saúde desempenhou papel fundamental na resposta à pandemia em São Paulo, tanto na triagem e no acompanhamento de casos leves quanto na articulação da campanha de vacinação. As UBS da cidade foram adaptadas para atender pacientes com sintomas respiratórios, com a criação de fluxos separados para evitar a contaminação cruzada, e passaram a oferecer teleatendimento como alternativa ao atendimento presencial durante os períodos de maior restrição.[224] A Estratégia Saúde da Família, presente em diversas regiões periféricas da cidade, foi mobilizada para o rastreamento de contatos e o monitoramento de casos em isolamento domiciliar, contribuindo para a redução da transmissão em comunidades de alta vulnerabilidade.[224]
As medidas de contenção adotadas pelas autoridades municipais e estaduais ao longo da pandemia em São Paulo abrangeram um amplo espectro de intervenções, desde restrições à circulação e ao funcionamento de estabelecimentos comerciais até políticas de transferência de renda e apoio a trabalhadores informais. O decreto de quarentena estadual, publicado em 22 de março de 2020, determinou a suspensão das atividades não essenciais em todo o estado, com exceção de serviços como saúde, alimentação, segurança e transporte.[225] No município de São Paulo, o prefeito Bruno Covas adotou medidas complementares, incluindo a suspensão de eventos públicos, o fechamento de parques e praças e a restrição ao funcionamento de bares e restaurantes.[226]O Plano São Paulo, lançado em maio de 2020, introduziu um sistema de classificação por fases — denominadas vermelha, laranja, amarela, verde e azul — que orientou a reabertura gradual da economia ao longo dos meses seguintes.[227]
O município de São Paulo, em razão de sua densidade populacional e da complexidade de seu sistema de saúde, foi frequentemente classificado em fases mais restritivas do que outros municípios do estado, gerando tensões entre as autoridades municipais, estaduais e os setores econômicos afetados pelas restrições.[227] Em março de 2021, diante do agravamento da situação epidemiológica, o governo estadual decretou a fase emergencial, com restrições máximas ao funcionamento do comércio e à circulação de pessoas, em vigor por três semanas consecutivas, prorrogadas posteriormente por mais duas semanas.[228]O toque de recolher, medida inédita na história recente do estado de São Paulo, foi adotado durante a fase emergencial, proibindo a circulação de pessoas entre as 23 horas e as 5 horas da manhã, com exceção de trabalhadores de serviços essenciais.[228] A medida gerou debate público intenso sobre sua eficácia e sobre os impactos desproporcionais sobre trabalhadores informais e moradores de periferias, que dependiam do transporte público para se deslocar ao trabalho em horários noturnos.[229] Organizações de direitos humanos e pesquisadores da área de saúde pública alertaram para o risco de que medidas restritivas sem acompanhamento de políticas de proteção social adequadas pudessem aprofundar as desigualdades já existentes, penalizando de maneira desproporcional os segmentos mais vulneráveis da população.[230]
No âmbito das políticas de proteção social, o governo federal instituiu o Auxílio Emergencial, benefício de transferência de renda destinado a trabalhadores informais, microempreendedores individuais e desempregados, que teve impacto significativo na redução da pobreza e da insegurança alimentar em São Paulo durante os períodos de maior restrição econômica.[231] No município, a prefeitura implementou programas complementares de distribuição de cestas básicas, refeições em restaurantes populares e apoio a organizações da sociedade civil que atuavam no atendimento à população em situação de vulnerabilidade.[232]
A campanha de vacinação contra a COVID-19 em São Paulo teve início em 17 de janeiro de 2021, quando a enfermeira Monica Calazans, moradora da zona norte da cidade e trabalhadora da saúde, tornou-se a primeira brasileira a receber a vacina CoronaVac, desenvolvida pelo Instituto Butantan em parceria com a empresa chinesa Sinovac Biotech.[233] O evento, realizado no Instituto de Infectologia Emílio Ribas, em São Paulo, marcou o início da maior campanha de vacinação da história do Brasil e teve repercussão internacional, sendo amplamente coberto pela imprensa nacional e estrangeira.[233]
A vacinação em São Paulo seguiu um calendário de priorização por grupos, iniciando pelos trabalhadores da saúde, seguidos pelos idosos institucionalizados, pelos idosos em geral — em ordem decrescente de faixa etária —, pelos portadores de comorbidades, pelos trabalhadores de serviços essenciais e, progressivamente, pela população em geral.[234] O município de São Paulo, em razão de sua escala e de sua capacidade logística, foi capaz de vacinar grandes contingentes populacionais em curto espaço de tempo, utilizando uma rede de postos de vacinação distribuídos por todos os distritos da cidade, incluindo unidades de saúde, escolas, ginásios esportivos e até o Autódromo de Interlagos.[235]
A cobertura vacinal em São Paulo avançou de maneira expressiva ao longo de 2021, com a cidade atingindo a marca de 50% da população adulta com pelo menos uma dose ainda no primeiro semestre do ano.[234] Contudo, a distribuição da vacinação não foi homogênea entre os diferentes distritos da cidade, com as regiões periféricas apresentando, em alguns momentos, taxas de cobertura inferiores às dos bairros centrais, em razão de fatores como menor acesso aos postos de vacinação, desinformação e hesitação vacinal.[236] A prefeitura adotou estratégias específicas para ampliar a cobertura nas regiões de menor adesão, incluindo a instalação de postos volantes em feiras livres, terminais de ônibus e outros locais de grande circulação popular.[235]
Além da CoronaVac, o município de São Paulo utilizou outras vacinas disponibilizadas pelo Programa Nacional de Imunizações (PNI), incluindo a AstraZeneca/Oxford, a Janssen e a Pfizer-BioNTech, cada uma com características específicas de armazenamento, esquema de doses e indicações por faixa etária.[237] A diversificação do portfólio de vacinas permitiu ampliar a velocidade da campanha e adaptar a estratégia de imunização às diferentes faixas etárias e grupos populacionais, incluindo crianças e adolescentes, que passaram a ser vacinados a partir do final de 2021 e início de 2022.[237]
Os impactos econômicos da pandemia de COVID-19 em São Paulo foram de grande magnitude, afetando setores como comércio, serviços, turismo, cultura e entretenimento, que dependiam da presença física de consumidores e trabalhadores. O Produto Interno Bruto (PIB) do município registrou contração expressiva em 2020, em linha com a retração observada em nível nacional e internacional, com setores como hotelaria, gastronomia, eventos e transporte de passageiros entre os mais afetados.[238] O fechamento compulsório de estabelecimentos comerciais e de serviços durante os períodos de maior restrição resultou em demissões em massa, redução de jornadas e salários, e aumento expressivo do desemprego e da informalidade.[239]
O setor de serviços, que representa a maior parcela do PIB paulistano, foi particularmente afetado pelas medidas de distanciamento social. Restaurantes, bares, hotéis, agências de viagem, cinemas, teatros e casas de shows foram obrigados a fechar suas portas ou a operar com capacidade reduzida por períodos prolongados, gerando perdas bilionárias e o fechamento definitivo de milhares de estabelecimentos.[240] O setor cultural, que inclui museus, teatros, centros culturais e espaços de entretenimento, também sofreu impactos severos, com o cancelamento de espetáculos, exposições e eventos que movimentavam a economia criativa da cidade.[241]
Por outro lado, a pandemia acelerou transformações estruturais na economia paulistana, como a digitalização do comércio e dos serviços, a expansão do trabalho remoto em setores de maior qualificação e a consolidação de plataformas de entrega por aplicativo, que registraram crescimento expressivo durante o período de restrições.[242] Esse processo de transformação, contudo, beneficiou de maneira desigual os diferentes segmentos da força de trabalho, ampliando a distância entre trabalhadores qualificados, capazes de migrar para o trabalho remoto, e trabalhadores de menor escolaridade, que dependiam da presença física para exercer suas atividades.[239]
O impacto sobre o mercado imobiliário de São Paulo foi ambivalente: enquanto o segmento de imóveis residenciais de médio e alto padrão registrou crescimento, impulsionado pela demanda por espaços maiores adequados ao trabalho remoto, o mercado de imóveis comerciais — especialmente escritórios e lojas de rua — sofreu com o aumento das taxas de vacância e a redução dos valores de locação.[243] O centro histórico da cidade, que já enfrentava desafios de revitalização antes da pandemia, foi particularmente afetado pelo esvaziamento comercial e pelo aumento da população em situação de rua, fenômeno que se intensificou durante o período de crise sanitária e econômica.[244]
O setor educacional foi um dos mais profundamente afetados pela pandemia de COVID-19 em São Paulo. A suspensão das aulas presenciais, decretada em março de 2020, afetou milhões de estudantes matriculados nas redes municipal, estadual e privada de ensino, impondo a transição abrupta para o ensino remoto emergencial em um contexto de profunda desigualdade no acesso a tecnologias digitais.[245] Enquanto estudantes de escolas privadas e de famílias de maior renda tinham acesso a computadores, tablets, conexão à internet de qualidade e espaço adequado para o estudo em casa, grande parte dos alunos das redes públicas — especialmente nas periferias — enfrentava dificuldades para acompanhar as aulas remotas, seja pela falta de dispositivos, seja pela ausência de conectividade ou pela necessidade de dividir o espaço doméstico com outros membros da família.[246]
A Secretaria Municipal de Educação de São Paulo implementou diversas estratégias para mitigar os impactos do ensino remoto, incluindo a distribuição de chips de internet para estudantes sem acesso à conectividade, a produção de material didático impresso para alunos sem acesso a dispositivos digitais e a transmissão de aulas pela televisão aberta em parceria com emissoras locais.[247] Apesar dessas iniciativas, estudos realizados por pesquisadores da área de educação apontaram para perdas significativas de aprendizagem, especialmente entre os alunos dos anos iniciais do ensino fundamental, que dependem mais da interação presencial com professores para o desenvolvimento de habilidades básicas de leitura e escrita.[248]
O retorno às aulas presenciais em São Paulo foi gradual e marcado por controvérsias. A rede estadual de ensino retomou as atividades presenciais de forma híbrida a partir de março de 2021, com rodízio de turmas e protocolos sanitários rigorosos, enquanto a rede municipal adotou cronograma semelhante com algumas variações.[245] O retorno pleno às aulas presenciais, sem restrições de capacidade, ocorreu apenas no início de 2022, após o avanço da vacinação e a redução dos indicadores de gravidade da doença.[247] O período de afastamento escolar prolongado deixou marcas duradouras no desenvolvimento educacional de uma geração de estudantes, com impactos que pesquisadores estimam que levarão anos para ser plenamente superados.[246]
Morte de Bruno Covas
[editar | editar código]A política municipal também foi marcada pela morte de Bruno Covas. Ele havia sido eleito vice-prefeito em 2016 na chapa de João Doria, assumiu a prefeitura em 2018, quando Doria renunciou para disputar o governo estadual, e foi reeleito prefeito em 2020.[249] Em maio de 2021, Covas morreu em decorrência de câncer, aos 41 anos, e o vice-prefeito Ricardo Nunes assumiu definitivamente a prefeitura.[250] A sucessão ocorreu durante a pandemia, em um contexto de crise sanitária, econômica e administrativa, exigindo continuidade de políticas de vacinação, retomada econômica, assistência social e gestão de serviços públicos.[251] Em 2024, Ricardo Nunes foi reeleito prefeito de São Paulo, consolidando a continuidade de sua gestão para a segunda metade da década.[252]
A eleição municipal de 2020 foi realizada sob as restrições da pandemia e com forte presença de temas como saúde, transporte, retomada econômica, zeladoria urbana, segurança e desigualdade.[253] Já a eleição de 2024 ocorreu em um ambiente político mais polarizado, marcado pela presença nacional de disputas entre campos conservadores, centro-direita, esquerda e candidaturas de forte atuação digital.[254] A política paulistana da década refletiu a fragmentação partidária nacional, a importância crescente das redes sociais, a centralidade dos temas urbanos e a disputa por eleitores das periferias, onde estão concentrados grandes contingentes populacionais e demandas por serviços públicos.[255]
A população em situação de rua tornou-se uma das questões sociais mais visíveis da década. Levantamentos oficiais e pesquisas da sociedade civil indicaram crescimento significativo desse grupo durante e após a pandemia, associado a desemprego, perda de renda, crise habitacional, conflitos familiares, saúde mental, uso problemático de álcool e outras drogas e encarecimento do custo de vida.[256][257] A presença de barracas, pessoas dormindo em calçadas, ocupações sob viadutos e concentração de vulnerabilidade em áreas centrais tornou-se tema de debates sobre assistência social, habitação, saúde, segurança, zeladoria e direitos humanos.[258]
A Cracolândia, na região central, continuou a ser um dos problemas urbanos mais controversos. A área passou por sucessivas operações policiais e ações de saúde, assistência e zeladoria, enquanto usuários de drogas se deslocavam por ruas da Luz, Campos Elíseos, Santa Ifigênia e outros pontos do centro.[259] A política municipal oscilou entre abordagens de cuidado, acolhimento, internação, repressão ao tráfico, dispersão do fluxo e requalificação urbana, gerando críticas de especialistas em saúde pública, moradores, comerciantes, movimentos sociais e órgãos de direitos humanos.[260] A persistência do problema evidenciou a dificuldade de articular saúde mental, redução de danos, habitação, trabalho, segurança pública e reurbanização do centro.[261]
A questão habitacional continuou a atravessar a história da cidade nos anos 2020. O encarecimento de aluguéis em áreas bem localizadas, a verticalização imobiliária, a presença de imóveis vazios, o déficit habitacional e o crescimento de ocupações e assentamentos precários mantiveram a moradia no centro do debate urbano.[262] A prefeitura deu continuidade a programas habitacionais, urbanização de favelas, parcerias e políticas de regularização, mas os resultados permaneceram limitados diante da escala da demanda.[263] Movimentos de moradia seguiram pressionando por habitação de interesse social no centro e em áreas com infraestrutura, enquanto incorporadoras intensificaram lançamentos residenciais em eixos de transporte e bairros em transformação.[264]
A revisão do Plano Diretor Estratégico do Município de São Paulo foi um dos principais acontecimentos urbanísticos da década. O Plano Diretor de 2014 passou por revisão intermediária nos anos 2020, culminando na Lei n.º 17.975, de 2023.[265] A revisão gerou debates sobre adensamento ao longo de eixos de transporte, verticalização, outorga onerosa, habitação de interesse social, preservação ambiental, áreas verdes, infraestrutura urbana e participação popular.[266] Críticos apontaram riscos de favorecer o mercado imobiliário e ampliar desigualdades, enquanto defensores argumentaram que a revisão buscava adequar a legislação à dinâmica urbana e estimular produção habitacional e adensamento planejado.[267]
A mobilidade urbana continuou como desafio estrutural. A cidade manteve forte dependência de ônibus e automóveis, enquanto o transporte sobre trilhos avançou de forma gradual e insuficiente diante da escala metropolitana.[268] A frota de ônibus passou por debates sobre renovação, eletrificação, concessões, subsídios, corredores e qualidade do serviço.[269] A expansão de ciclovias e ciclofaixas, iniciada na década anterior, continuou sendo discutida em termos de segurança viária, conexão entre trajetos, manutenção e integração com transporte público.[270] A pandemia alterou padrões de deslocamento, com queda inicial de demanda no transporte coletivo e aumento relativo de entregas por aplicativo, motocicletas, bicicletas e trabalho remoto.[271]
O transporte sobre trilhos passou por ampliações e projetos relevantes. A Linha 15-Prata continuou sua operação na zona leste, enquanto projetos como a Linha 6-Laranja, a Linha 17-Ouro e expansões de linhas existentes permaneceram no debate público.[272][273] A Companhia Paulista de Trens Metropolitanos continuou a operar linhas essenciais para deslocamentos metropolitanos, conectando a capital a municípios vizinhos.[274] A lentidão de obras, atrasos, custos elevados e dependência de parcerias público-privadas reforçaram a percepção de que a mobilidade paulistana depende de planejamento de longo prazo e integração metropolitana.[275]
A economia da cidade sofreu forte impacto em 2020, especialmente em comércio, serviços presenciais, bares, restaurantes, turismo, cultura, eventos, trabalho informal e pequenas empresas.[276] A retomada posterior foi desigual: setores ligados a tecnologia, finanças, saúde, logística, comércio digital e serviços profissionais se recuperaram mais rapidamente, enquanto atividades dependentes de circulação presencial enfrentaram maior vulnerabilidade.[277] A expansão do trabalho remoto e híbrido afetou a dinâmica de bairros corporativos, do centro histórico, de restaurantes, transporte e mercado imobiliário comercial.[278] O centro de São Paulo passou a enfrentar debates sobre esvaziamento de escritórios, reocupação habitacional, segurança, comércio popular e requalificação urbana.[279]
A cultura foi duramente atingida pela pandemia, com fechamento de teatros, cinemas, casas de show, museus, centros culturais, bares, eventos e festivais.[280] A reabertura gradual trouxe de volta eventos como a Virada Cultural, a Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, festivais de cinema, exposições, feiras literárias, shows e atividades de rua.[281][282] Ao mesmo tempo, a cultura periférica, os saraus, os slams, as batalhas de rap, os coletivos audiovisuais, as ocupações culturais e as redes digitais mantiveram grande importância para a produção cultural urbana.[283]
A década também foi marcada por eventos climáticos extremos e crises de infraestrutura. Fortes chuvas, alagamentos, quedas de árvores, deslizamentos e interrupções de energia afetaram diferentes regiões da cidade.[284] Em novembro de 2023, um temporal provocou um apagão de grande proporção na capital e na região metropolitana, deixando milhões de pessoas sem energia e gerando críticas à concessionária Enel e ao modelo de concessão do serviço.[285] Novos temporais em 2024 reacenderam discussões sobre poda de árvores, enterramento de fios, fiscalização de concessionárias, adaptação climática, drenagem e resiliência urbana.[286]
A política ambiental municipal incorporou instrumentos voltados à crise climática. São Paulo aprovou e atualizou planos de ação climática, inventários de emissões e políticas de mitigação e adaptação, em diálogo com redes internacionais de cidades.[287] O Plano de Ação Climática do Município de São Paulo estabeleceu metas e diretrizes para reduzir emissões, adaptar a cidade a eventos extremos, ampliar áreas verdes, melhorar mobilidade sustentável, reduzir riscos e integrar planejamento urbano à agenda climática.[288] A efetividade dessas políticas, porém, depende de investimentos em drenagem, arborização, transporte limpo, habitação segura, saneamento e proteção de áreas de risco.[289]
A segurança pública continuou a apresentar desigualdades territoriais. A cidade manteve taxas de homicídio inferiores às registradas nas décadas anteriores, mas a violência letal, a violência policial, os roubos, furtos, feminicídios e crimes patrimoniais seguiram distribuídos de modo desigual entre regiões.[290] A percepção de insegurança foi particularmente intensa no centro, em áreas comerciais e em regiões com grande circulação de pedestres, influenciando debates sobre policiamento, iluminação, zeladoria, população em situação de rua e uso do espaço público.[291] A desigualdade de segurança se somou a desigualdades de renda, mobilidade, moradia e acesso a serviços públicos.[292]
No campo tecnológico, a cidade intensificou sua imagem de polo de inovação, startups, fintechs, tecnologia educacional, economia digital e serviços de alta qualificação.[293] A presença da USP, UNIFESP, FGV, Insper, Mackenzie, PUC-SP, FAPESP, Butantan, IPT, hospitais, centros de pesquisa e empresas de tecnologia reforçou o papel de São Paulo como economia urbana baseada em conhecimento.[294] A digitalização, no entanto, também expôs desigualdades: famílias sem internet de qualidade, estudantes sem equipamentos, trabalhadores de aplicativos em condições precárias e pequenas empresas sem capacidade tecnológica foram mais vulneráveis.[295]
A década de 2020, ainda em curso, consolidou São Paulo como uma metrópole de contrastes. A cidade mostrou capacidade de resposta institucional durante a pandemia, concentrou produção científica, manteve centralidade econômica e ampliou debates sobre clima, urbanismo, mobilidade e inovação.[296] Ao mesmo tempo, aprofundou desafios ligados a pobreza, população em situação de rua, moradia, desigualdade digital, insegurança energética, crise climática, precarização do trabalho e segregação territorial.[297] A história paulistana dos anos 2020 deve ser entendida, portanto, como período de choque pandêmico, recomposição econômica e reconfiguração urbana, em que a metrópole reafirmou sua importância nacional, mas também tornou mais visíveis os limites de seu modelo de desenvolvimento.[298]
Ver também
[editar | editar código]Referências
- ↑ Cheliz, Pedro; Sousa, João Carlos; Mingatos, Gabriela; Okumura, Mercedes; Araújo, Astolfo (2020). «A Ocupação Humana Antiga (11 – 7 mil anos a.p.) do Planalto Meridional Brasileiro: caracterização geomorfológica, geológica, paleoambiental e tecnológica de sítios arqueológicos relacionados a três distintas indústrias líticas». Universidade Federal de Pernambuco. Revista Brasileira de Geografia Física. 13 (6): 2553–2585. Consultado em 26 de setembro de 2022. Cópia arquivada em 11 de dezembro de 2025
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